"O silêncio é o mais eloqüente arauto da alegria.
Pequena seria a minha felicidade,
se eu pudesse dizer quanto ela é grande."
(Shakespeare - Muito barulho por nada)

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

LISPECTOR, Clarice. In: Para não esquecer.

Vinícius Cássio Barqueiro
Sábado, 07 de novembro de 2009

A Companheira

"(...) ao novo dia
em harmonia,
a sempre forte
e meu suporte
quando vacilo,
porte tranqüilo,
voz de carinho
no meu caminho,
leal, paciente
constantemente (...)"

Drummond




um ano.







Vinícius Cássio Barqueiro =-]
Quinta-feira, 05 de novembro de 2009

Cidadão do nosso tempo

"Ser um “cidadão do nosso tempo” é essencialmente afirmar com todas as forças não suportar a mentira e a injustiça, e em seguida, dizer que a verdade é relativa e que não existe certo e errado." ( Edson Camargo )

Vinícius Cássio Barqueiro
Domingo, 01 de novembro de 2009

Presença Ansiada

Assim que entrei. Fui dominado por aquela presença. Não a verde do grande quadro negro. Ou a bege dos colegas de classe. Mas a pequena presença azul-celeste. Clara e branca. Esvoaçante. Ansiada. Ela sempre me inquietava. Mas naquele dia. Aquela presença. Tomava toda minha atenção. E tensão. Necessidade de preenchimento. Observava-a de longe. Timidamente. Desejante. Atento. Aquele azul e branco movia-se. Pra lá. E pra cá. Meus olhos compenetrados. Observavam. Ela movia-se. Abria-se em branco. As mãos em movimento. E fechava-se em azul. Lentamente. Passivamente. Ia. E vinha. Eu já não disfarçava a angústia. Desejava-a. Meu corpo se mexia. Erguia-se à procura. À espera. Aos pequenos movimentos. Intensificava-se. Mais. Meus olhos chamavam-na. Ela saia de vista. E voltava. E ficava parada. E logo se movia. Cada vez mais perto. Cada vez mais perto, cada vez mais. Perto. Perto. Perto perto perto. Perto! Dentro de mim! Dentro da sala. De aula. Não ouvia o professor. Mas aprendia. A esperar. A desejar. A desejá-la por dentro. A ler cada sinal. E a chamá-la em silêncio. O sentido da aula estava ali. Tê-la. Para mim. Agora. As mãos em movimento. Impulsos. Mais um olhar. Agora mais nítido. Mais corajoso. Mais corajoso. Mais. Mas. Não! Não faça isso! Corajoso. Já fiz. Toquei-a! Puxei-a para mim. E as mãos cederam-me. E os olhos confessaram o desejo. De ambos. Ela se abria diante de mim, lentamente. Lentamente. Meu corpo relaxara profundamente, suspirante. Tenso. Erguido. Ela estava ali. Em mim. Olhei ao redor. Uma mão segurava-a em meu colo. Forte. A outra mão nas pernas procuravam. Tocavam. Vasculhavam lentamente aquele jeans. De leve. Silenciosamente. E mais. E mais. Mais. E mais e mais. E mais! Dentro dela. E mais. Até alcançar. Até. O ápice. Ergui. Segurei forte. A caneta do bolso. Abri aquela capa azul. Tudo branco. Assinei meu nome na data. Nas datas. Nenhuma falta. Preenchimento completo. Fechei. E entreguei aos outros corpos sedentos, excitados. Beges. O verde ao fundo. Negro. E eu ali. No céu. Com a presença alcançada! Libertei-me daquela dominação. Levantei. Corajoso. E sorri. Saciado. Assim que saí.

Vinícius Cássio Barqueiro
Sábado, 24 de outubro de 2009

Comentando Comentários

"Oi maninho. Antes de tudo, PARABENS!!! Desejo bênçãos e que você sustente a fé e as palavras e ações diante de Deus com toda integridade. Sobre as certezas, estou "certo" que devem existir e de fato existem para a maioria das pessoas. Esbarramos nos pontos que vc passou que permeiam e tentam muitas vezes esconder as opiniões e posições das pessoas. Como cristão não posso negar minha chateação com o relativismo, ecletismo etc. A nossa postura não pode negar e se esconder frente a essas posições pantindo do princípio que para um crente viver ele precisa de fé e a bíblia diz que fé é certeza, uma convicção. O pano de fundo para o crente é esse e então parte para as outras áreas da vida construindo as posturas. É uma cosmovisão ...cristã. O que precisamos exercitar e sermos sábios é na maneira de expor e confrontar. não sei se era ai que vc queria que a gente chegasse heheheh. atualizei o blog e passei sobre o tema. paz" (12/agosto/2009)
Sam (e todos), obrigado pelos parabéns no meu aniversário!
Quanto às certezas, legal! Também concordo que elas "devem existir e de fato existem para a maioria das pessoas", tanto que meu objetivo na série de textos era esse, tentar revelar o quanto a maioria das pessoas que pregam o "relativismo" acaba tendo certezas, inclusive a famosa e paradoxal "certeza na verdade de que não existem verdades". Acabei nem levando o "projeto" tão adiante, rs, mas e não me arrependo. Acho que minha abordagem era um pouco teórica e ofensiva demais, a troco de nada pouco.
Aliás, do seu comentário, gostei muito de (e quero destacar) a frase "O que precisamos exercitar e sermos sábios é na maneira de expor e confrontar". Concordo plenamente, e isso me fez faz repensar: se eu tentava mostrar as certezas e verdades dos "relativistas" através do comportamento deles, da mesma forma as certezas e verdades por trás daqueles que assumem uma "cosmovisão cristã" podem "devem" (creio eu) ser reveladas no comportamento, nas ações. "Falar" faz parte disso, claro, mas concordo que boa parte da persuasão está no bom procedimento, tão difícil de ser alcançado, mas não nítido quando existe. Concordam?
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2) Dayane comentou É o rio:
Esse post foi inspirado em mim?Pois parece,rs.nem precisa de explicações,né?Rs.Bjo Vi. (16/agosto/2009)
Day e pessoal! Várias vezes recebo perguntas (aqui, acolá, pessoalmente) sobre se tal texto é inspirado em certa pessoa e certa ocasião (será que vão perguntar sobre este aqui que escrevo agora? rs). A resposta, para mim, é sempre sim e não. Creio que tudo que escrevo é inspirado nas experiências que tenho (se não, de onde vem? rs. Até a criatividade parte da realidade.), mas, para mim, é sempre uma mescla de várias situações que aconteceram ou que imagino que possam acontecer. Uma mescla de pessoas e sentimentos e imaginação e arte. Aliás, quanto aos textos mais artísticos, acho que o desafio a que me proponho é exatamente este: reelaborar minha visão da realidade de maneira poética e universalizante, de maneira que possa tocar os sentimentos além dos meus, os sentimentos de vocês. De maneira que possa permitir aos leitores, por um segundo, olharem pra dentro de si, confusos. Ousado?
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Aproveito para convidá-los a conhecer o blog do Samir, o blog da Dayane, e todos os blogs listados aqui. Grandes amigos admirados.

Vinícius Cássio Barqueiro
Sábado, 03 de outubro de 2009

Pequenas Coisinhas

A formiga e a cigarra estavam sentadas, conversando e observando as primaverais cores e flores que tinham chegado após aquele duro inverno. As maiores brigas tinham passado, mas as pequenas coisinhas ainda floresciam, apertavam. A formiga virou e reclamou:

- Você só fala de você! Por que não falamos de mim?

Daí continuaram a falar da cigarra e de sua mania de falar de si mesma. Ignoravam as flores, as cores, o duro inverno que tinham vencido juntas.

Vinícius Cássio Barqueiro
Sábado, 26 de setembro de 2009